Qual é o segredo da felicidade?

Fonte: 2benny - Flickr

 

Os países nórdicos têm nos ensinado que não existe felicidade plena sem senso de equidade e justiça. Foi assim com a Dinamarca e a Noruega. Este ano a bola da vez é a Finlândia.

Tudo começou com todas as atenções à Dinamarca. Desde que o ranking das Nações Unidas sobre os países mais felizes do mundo saiu pela primeira vez, em 2012, esse pequeno país nórdico sempre esteve entre os cinco primeiros colocados, garantindo a liderança nos anos 2012, 2013 e 2016. Em 2018, a Finlândia liderou o ranking e, em 2017, foi a vez da Noruega.

Ser feliz na Dinamarca parece uma característica intrínseca. Algo tão comum como andar de bicicleta no país. E bicicletas é o que mais se vê pelas ruas. E mesmo com meses e meses de temperaturas congelantes, as pessoas saem e pedalam. E como pedalam: aproximadamente 75% do tráfego de bicicletas continua durante o inverno.

Dias curtos sem muito sol, inverno pesado, como sobreviver e manter-se feliz? Ao que tudo indica o termo Hygge pode ter uma certa influência. Hygge não tem uma tradução exata, mas associa bem-estar e aconchego a uma boa comida e drinks, a um ambiente, um momento legal com a família e amigos, ou até mesmo a tranquilidade de curtir um livro com uma boa xícara de café. Em 2016, foi uma das palavras mais procuradas segundo estatísticas do Dicionário Oxford online. Teve uma derrocada de livros, reportagens, virou um hit nas mídias sociais com hashtags para fotos de decorações com velas. Era como se todo mundo quisesse trazer um pouco do estilo de vida dinamarquês para dentro de casa.

Mas o que a Dinamarca, Noruega e Finlândia têm em comum?

Três países nórdicos, situados em uma das áreas habitáveis mais frias do planeta. Juntos, têm uma população que não chega a 17 milhões de habitantes, nada nem perto do estado de São Paulo, com mais de 45 milhões. Mas o que faz eles serem considerados os mais felizes do mundo?

A análise de felicidade não é relacionada à espontaneidade ou intensidade das gargalhadas diárias, mas à confiança,  segurança e liberdade. Menos desigualdade, mais felicidade. E embora o hygge tenha um papel relevante no dia-a-dia dos dinamarqueses e noruegueses, assim como o kalsarikannit na Finlândia, o que fundamentalmente estabelece o bem-estar da população é a garantia de suporte, equidade e justiça.

O relatório das Nações Unidas avalia seis fatores para determinar as nações mais felizes: PIB per capita, expectativa de vida saudável, senso de suporte social seja por amigos ou família, confiança no governo, liberdade pessoal e generosidade.

E por que os dinamarqueses têm uma visão positiva sobre a vida deles? Baixa criminalidade, um salário justo, acesso a um bom sistema de saúde e educação de alta qualidade. Com apenas 5,6 milhões de habitantes, a Dinamarca é conhecida por ser um dos países com a maior igualdade de renda e baixíssimas taxas de pobreza. É um país liberal e progressista, sendo o primeiro a garantir direitos legais para uniões de pessoas do mesmo sexo, em 1989, e também tem a tradição de suportar direitos humanos. Há foco no indivíduo e liberdade de escolhas pessoais é um direito.

Os impostos desses três países passam a barreira dos 50%, chegando a 60% na Dinamarca, o índice mais alto do mundo, segundo a OECD. Porém a população se sente amparada pelo governo e todos os direitos básicos estão garantidos: educação, saúde e uma aposentadoria tranquila. E a maioria acredita que altos impostos podem criar uma sociedade melhor.

Existe uma grande confiança no governo e os impostos são revertidos em benefícios para a população. Na Finlândia, por exemplo, as poucas escolas privadas são subsidiadas pelo Estado, no entanto a maior parte da população se beneficia de um sistema público de altíssima qualidade, o que garante a educação um direito universal e igualitário. Todos têm as mesmas oportunidades e o país é considerado hoje um modelo no setor.

E como se não bastasse, esses países lideram outras listas, entre elas, o ranking de liberdade de imprensa dos Reporters without Borders (Repórteres sem Fronteiras): Noruega (1°), Finlândia (4°) e Dinamarca (9°). Só para ter um comparativo, Brasil está em 102° lugar e os Estados Unidos, 45° lugar.

Percepção no Brasil e EUA – Segundo um estudo da UK research company Ipsos MORI, divulgado em março de 2018, que compara as principais preocupações de 28 países, 88% dos brasileiros acreditam que o país está na direção errada enquanto apenas 12% estão otimistas. Já nos Estados Unidos, 57% veem o país na direção errada contra 43% na certa. Nenhum dos 5 países mais felizes do mundo foram analisados na pesquisa.

As três principais preocupações dos brasileiros são: violência e crime (53%), corrupção (52%) e sistema de saúde (49%). E no topo da lista dos americanos estão crime e violência (35%), sistema de saúde (33%) e terrorismo (29%). Brasil e Estados Unidos ranqueiam respectivamente em 22° e 14° lugar no ranking mundial da felicidade.

Daniela K. Stenzel