Por que os projetos de infraestrutura demoram tanto?

 

Investimentos no setor são cruciais para o desenvolvimento de economias fortes. No entanto, certos fatores geram atrasos nas aprovações das obras, como foi o caso da substituição da Tappan Zee Bridge, um projeto que demorou três décadas para sair do papel.

Investimento em infraestrutura é um fator essencial para o desenvolvimento de um país. Porém o Brasil está muito longe do ideal. Segundo um relatório do Banco Mundial, o país investiu pouco mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) no setor nos últimos 20 anos, enquanto economias emergentes como a Índia e a China superaram as barreiras dos 4% e 8%, respectivamente.

A dificuldade de planejamento e aprovação de obras não é apenas um problema do Brasil. Um dos maiores projetos da atualidade nos Estados Unidos, a substituição da ponte Tappan Zee Bridge pela Mario Cuomo, é um exemplo disso. O projeto levou cerca de 30 anos para sair do papel, sendo aprovado somente em 2012, e desde então avançou em velocidade recorde.

Armadilhas –Segundo o professor Philip Mark Plotch, autor do livro Politics Across the Hudson: The Tappan Zee Megaprojec (Política Através do Hudson: O Megaprojeto da Tappan Zee), certos fatores foram responsáveis pelos atrasos. Uma das principais razões foi a complexidade das leis ambientais. No início dos anos 70, os Estados Unidos implementaram leis rígidas que requeriam mais detalhes em ações que pudessem impactar o meio ambiente. Na década de 80, o projeto de substituição da ponte tornou-se ainda mais complicado, pois foi soterrado com demandas de múltiplas agências regulatórias federais e estaduais. Além disso, qualquer mudança gerava uma revisão e tudo voltava à estaca zero, como aconteceu nos anos 90 e 2000.

Política pública é um tema complexo e obras de infraestrutura são uma ótima evidência de objetivos conflitantes. Megaprojetos de transportes devem balancear metas de longo prazo, tais como redução de impacto ambiental, desenvolvimento econômico, melhoria do tráfego local (no caso específico da Tappan Zee Brigde foi preciso pensar nos próximos cem anos). Entretanto, agradar todas as partes envolvidas, que defendem seus interesses individualmente, torna o processo caro, consome tempo e é contraproducente. Diferentes objetivos criam um ambiente que promove conflitos entre agências governamentais, somente este projeto contou com a aprovação de mais de 15 agências locais, estaduais e federais.

A falta de financiamento adequado também atrasou o processo. Embora em várias ocasiões o estado de Nova York poderia executar a sua parte, outras administrações locais tinham uma visão continua de grandiosidade da obra e não havia um acordo claro. Projetos como este podem envolver beneficiamento de estradas, opções de transporte de massa, entre outros, o que abrange diversas administrações municipais, tornando a execução mais ambiciosa e sem uma estratégia concreta de financiamento.

Além disso, a população está em uma posição delicada para entender os benefícios, custos e riscos associados, o que gera esperanças falsas. No caso da ponte, Plotch relata que alguns interessados promoveram expectativas infundadas para avançar suas agendas e, em alguns casos, as mesmas foram formadas por ignorância em relação aos fatos.

A diferença – Segundo o professor Plotch, a falta de liderança governamental, em momentos específicos, foi uma das razões que fez a aprovação deste projeto levar mais de 30 anos. Governadores não exerciam uma posição firme com os diretores de suas várias agências, distanciando-se de decisões que pudessem alienar partes dos eleitores e definitivamente evitavam discutir partes do financiamento que poderia incorrer em decisões impopulares, como o aumento dos preços dos pedágios ou a eliminação de uma nova linha de trem. Além disso, manipulações de dados e omissão de informação sobre as alternativas não eram resolvidas ou encaminhadas .

Na visão de Plotch, liderança executiva do governo é primordial para a solução desta série de problemas. Em seu livro, ele mostrou como diferentes governadores de Nova York superaram a natureza lenta de megaprojetos. “Membros do poder executivo tem uma motivação natural de obter sucesso durante o seu termo”, acredita. Liderança governamental é mais crítica do que nunca para acelerar a execução de projetos de infraestrutura.

 

Foto: Saint Peter’s University

* Philip Mark Plotch é um autor, professor e especialista em planejamento de transporte; tem mestrado e PhD nas áreas de Planejamento Urbano e Política Pública. É também conhecido por liderar esforços para reconstruir o World Trade Center e suas pesquisas sobre política e planejamento por trás de megaprojetos de transporte. Em 2015, ele publicou o livro “Politics Across the Hudson: The Tappan Zee Megaproject” que fala sobre as complexidades do projeto.

 

 

 

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