Inovação e empreendorismo: brasileira vira aposta dos EUA

 

Com ampla experiência acadêmica e no setor privado, Cristina Castro-Lucas é uma profissional com um perfil diferenciado, tornando-se a primeira embaixadora do Brasil em programas que promovem o empreendorismo feminino e destaca-se em projetos de inovação.

Durante um evento em Nova York do projeto Biotic, o primeiro parque tecnológico de Brasília, uma personalidade se destaca. Ativa, rápida e a única mulher com uma posição de liderança no evento, Cristina Castro-Lucas tocou a agenda da viagem aos Estados Unidos que procurou promover e buscar informações para o desenvolvimento do parque. “Se quiserem fazer algo de ponta, tem que conhecer o que tem de ponta”, afirmou.

Com os pés no chão e envolvida em inúmeros projetos de empreendorismo e inovação, Cristina gosta de ressaltar: “eu sou uma professora”. Mas a sua experiência vai muito além do campus e foi crucial para o início do projeto. Em 2011, ajudou a criar o primeiro parque tecnológico da UnB, foi professora visitante na Universidade de Cornell, tem dois doutorados e inúmeros contatos. Dois projetos foram estudados, Cornell Tech, que é um campus novo e Stanford University, que tem uma estrutura mais antiga focada no Vale do Silício. A visita e experiência de Cristina foram essenciais para o início de um processo de cooperação com as duas universidades.

Empreendorismo feminino – A experiência de Cristina é peculir porque une conhecimento acadêmico a experiências práticas. Em 2012, Cristina iniciou uma nova etapa da sua carreira ao ingressar na Universidade de Brasília (UnB) após ter passado os últimos cinco anos na França, onde trabalhou na Louis Vitton e cursou seu segundo doutorado. “Era a hora de voltar, dois filhos pequenos, família, resolvi que queria regressar ao Brasil para que eles pudessem aprender português”, conta. Apenas dois meses depois de começar o novo trabalho, Cristina foi convidada para ser coordenadora de extensão do Núcleo de Inovação Tecnológica da UnB.

Em seguida, foi aprovada para coordenar um projeto de pesquisa: o Novos Talentos (Capes) tinha o propósito de desenvolver uma cultura empreendedora e científica na educação pública, com foco em estudantes e professores do segundo grau. Cristina teve a ideia de fazer uma disciplina transversal de inovação e empreendorismo, que unia as matérias curriculares com propostas práticas.

O projeto teve tanta repercussão que chamou a atenção da embaixada americana que resolveu implementa-lo na Amazônia com a ajuda de Cristina. Em 2014, ela foi a primeira brasileira escolhida para ser embaixadora do Brasil pelo WeAmericas (Women’s Entrepreneurship in the Americas), um programa de mulheres empreendedoras iniciado por Hillary Clinton e concretizado durante o primeiro termo do ex-presidente Barack Obama.

O programa WEAmericas foi originalmente lançado durante o Summit das Americas em 2012 como parte de um trabalho que procura impulsionar o crescimento econômico por meio de iniciativas que reduzam barreiras e aumentem oportunidades para mulheres empreendedoras. “Foi um surpresa, eu imaginei que eles escolheriam empresárias e eu sou uma professora” conta Cristina que na época estava na Dinamarca apresentando um trabalho sobre inovação de serviço.

Daí foi organizar-se, fechar as malas e partir para o Washington onde passou mais seis semanas entre treinamentos na Casa Branca e viagens em vários estados americanos. Quinze mulheres das Americas, 12 eram empresárias e 3 professoras, estavam no grupo e pela primeira vez uma brasileira. “Mulheres incríveis com experiências extraordinárias”, definiu Cristina que ficou imersa no programa organizado pelo Departamento de Estado Americano. Com isso, redes foram formadas, grupos foram desenvolvidos, sempre com o foco de desenvolvimento inserção da mulher no mercado de trabalho.

Paralelamente a WEAmericas, Castro-Lucas também é embaixadora do Brasil, pela WEDO (Women’s Entrepreneurship Day Organization), uma associação não-governamental que criou o WED, Dia do Empreendedorismo Feminino, que hoje ocorre simultaneamente em 145 países. No ano passado, Brasília foi o palco do evento pela primeira vez. Segundo Cristina, o evento ajudou a integrar redes e ONGs que apoiam o emponderamento das mulheres e abriu espaço para uma discussão de vários temas, sejam por homens ou mulheres. Dez mulheres foram premiadas durante o WED.

Cristina ressalta que equidade de gêneros não é uma ação social, mas uma necessidade para o desenvolvimento pleno e sustentável, uma vez que as mulheres tem um papel fundamental na economia, no entanto hoje só cerca de 6% estão em posição de liderança. “E não é uma questão apenas de igualdade, mas equidade, é acreditar que se você der competência qualquer pessoa chega lá, seja homem ou mulher”.

Além do dia do Dia do Empreendorismo Feminino, a WEDO também apoia um projeto social chamado Vira-Vida, que trabalha com adolescentes que estão em situação de risco e vulnerabilidade social. A ideia é criar uma rede de oportunidades por meio de educação e capacitação profissional para uma maior inclusão social e reinserção no mercado de trabalho. Hoje 87 % do programa são meninas, uma vez que elas são as maiores vítimas de violência.

“A meta agora é internacionalizar esse projeto para países que tenham uma cultura parecida com a nossa”, ressalta Cristina que sempre pensa num passo à frente e conclui “A gente precisa fazer algo por este mundo, não adianta pedir para os outros, passar a responsabilidade ao governo, enfim, eu gosto muito do que eu faço e trabalhar com inovação para mim é um grande ganho”.

Daniela K. Stenzel