Educação: por que a Finlândia é considerada um exemplo?

Fonte: Sami C - Flickr

 

Para impulsionar o desenvolvimento da economia nos anos 70, o país resolveu investir em educação. E o resultado está aí, hoje a Finlândia é um exemplo de um sistema educacional de alta qualidade que visa equidade, confiança e responsabilidade.

Educação de alta qualidade é um direito universal e todas as crianças e jovens devem ter acesso às mesmas oportunidades. Esses são conceitos essenciais da educação finlandesa, considerada hoje uma das melhores do mundo. Porém os finlandeses deram um passo à frente ao também valorizar um sistema que preza responsabilidade e não menospreza a importância das crianças serem crianças.

Mas a história não foi sempre assim. Segundo dados da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em 1970 apenas 30% dos estudantes finlandeses obtinham um diploma de educação superior (atualmente esta taxa é de 80% e, entre jovens de 24 a 35 anos, 90%). Para impulsionar o desenvolvimento da economia, o país resolveu investir em educação e criou um sistema fundamentalmente público e igualitário. Aos poucos, iniciou-se uma reforma do sistema compulsório e todas as instituições do país passaram a seguir o mesmo currículo. Mas a grande diferença foi apostar em professores extremamente competentes.

Com a reforma, a formação dos professores passou de escolas especiais (teachers seminaries) para as universidades e virou requerimento obrigatório a obtenção de pelo menos uma pós-graduação. E durante os anos de 1972 a 1977, docentes de todas as municipalidades tiveram um treinamento para adaptar-se ao novo sistema.

A reforma também instituiu a educação gratuita um direito. Apenas 3% das escolas no país são geridas por instituições privadas e a maior parte delas também é mantida pelo Estado. Segundo o Ministério da Educação da Finlândia, as instituições não podem cobrar mensalidades ou gerar lucros, embora as escolas privadas possam ter algumas taxas. As refeições e materiais escolares não são cobrados e estudantes podem usar o sistema público de transporte gratuitamente. Essa regra também se aplica às escolas particulares que recebem investimento do governo.

A ideia é que todos os alunos tenham as mesmas experiências educacionais, porém como os professores são profissionais altamente qualificados, eles têm autonomia para escolher os métodos de ensino dentro da sala de aula. Mas o setor é extremamente competitivo, apenas 10% dos candidatados são aceitos em programas de formação de professores nas universidades, de acordo com a Agência Nacional Finlandesa para a Educação. Por isso, acredita-se na liberdade de escolha dos professores e não há controle como testes estandardizados nacionais e as inspeções governamentais foram abolidas no início dos anos 90. Basicamente o Estado diz o que será ensinado, mas como, cabe aos professores.

Os finlandeses enfatizam a importância do aprendizado por meio de experiências, com destaque para pesquisas, trabalhos em grupo e soluções de problemas. O foco da educação finlandesa é o desenvolvimento da capacidade do aluno em ser crítico com o seu próprio aprendizado. Estudantes têm um parada de 15 minutos, para cada 45 minutos de instrução. As classes também são pequenas, com menos de 20 alunos. E o mesmo professor segue com a classe durante todo o período do ensino primário.

A Finlândia também tem um das menores cargas horárias do mundo, estudantes ficam na escola durante 6,300 horas durante os 9 anos de educação compulsória, o que representa 1,200 horas a menos que a média da OECD.

O salário, no entanto, não é a principal razão da competividade do setor, mas sim o alto prestígio, autonomia profissional e o conceito de fornecer um serviço de utilidade à sociedade. As remunerações dos docentes são um pouco inferiores quando comparadas com outros profissionais com pós-graduação. Um professor do jardim de infância ganha em média 2,600 euros brutos por mês, 3,400 euros na escola primária, 3,700 euros no setor secundário inferior e 4,300 euros no setor secundário superior. A média geral dos salários na Finlândia é de 3,300 euros por mês e 3,094 no setor municipal, segundo dados de 2014 da Agência Nacional Finlandesa para a Educação.

Na prática – Os finlandeses acreditam que as crianças devem ter tempo para brincar. A educação obrigatória e alfabetização começa somente aos 7 anos e, durante os primeiros estágios, o foco está na criatividade e no desenvolvimento de indivíduos responsáveis. Há muita atividade física e brincadeiras ao ar livre (mesmo com o frio!). Além do destaque para o aprendizado de idiomas, os estudantes também têm cursos de cozinha, artes, costura, música, entre outros. “Todos os finlandeses falam pelo menos três línguas, finlandês e sueco, que é a segunda língua oficial do país, e uma terceira, mas também não é nada difícil ver alguém que fale 4 ou 5 idiomas”, conta a brasileira Aime Virkkilä Accorsi, que imigrou para a Finlândia há 10 anos, com a sua filha, na época com 5 anos.

Accorsi ressalta como a autonomia dos professores influencia o dia-a-dia dos estudantes. “Embora haja a necessidade de seguir um currículo nacional, eles têm a liberdade de escolher o material usado, personalizar a sala de aula com a escolha dos móveis e decoração e, principalmente, a independência de decidir com os alunos os métodos para a realização dos projetos”. Na escola secundária básica, os alunos são avaliados no final de cada módulo, por meio de um projeto ou exame. Porém um dos objetivos é o desenvolvimento da capacidade de avaliação própria, responsabilidade e independência.

Os finlandeses têm uma visão crítica constante da educação e não ignoram as mudanças que o mundo vem sofrendo. Em agosto de 2016, o país introduziu uma reforma no currículo nacional no qual tornou-se compulsório que todas as escolas começassem a educar de uma forma mais colaborativa. O novo currículo encoraja uma abordagem multidisciplinar e a discussão de temas atuais. A ideia é que os estudantes possam escolher um tema relevante e apliquem diversas matérias na discussão, usem tecnologia e recursos externos, como por exemplo, conversas com especialistas, pesquisas e visitas a museus. O objetivo do novo currículo é desenvolver adultos com pensamento crítico e preparados para as tendências atuais.

Hoje na Finlândia, as crianças têm um ano de pré-escola, seguido de 9 de escola compulsória (7 aos 16 anos). No entanto, cabe aos pais a decisão de uma creche ou pré-escola, ambos subsidiados. Depois do término da educação compulsória, há duas opções: partir para o sistema acadêmico ou vocacional. O critério de seleção é baseado principalmente nas notas do período escolar. Contudo, as agências vocacionais também podem considerar outros fatores, como experiência de trabalho e testes de aptidão. Mais de 90% dos estudantes iniciam os estudos superiores logo após o término do sistema compulsório, segundo a Agência Nacional Finlandesa para a Educação.

Desde de 2001, data do primeiro ranking do Pisa, teste aplicado pela OCDE que avalia estudantes de 15 anos em 72 países nas matérias de leitura, matemática e ciências, a Finlândia tem ranqueado entre as melhores educações do mundo. Embora tenha perdido algumas posições nos últimos rankings, principalmente para países asiáticos, na avaliação mais recente (2015) o país arrematou quarto lugar em leitura, quinto em ciências e 12em matemática (empatando com a Dinamarca). O exame é feito a cada 3 anos.

Daniela K. Stenzel